A investigação de Flavio Rossi (1979), e a procura de novas soluções técnicas de produção, criam aparentes descontinuidades estéticas no seu percurso artístico. Exponenciadas pelo ecletismo e domínio técnico resultante da sua prática profissional como ilustrador, antes de se dedicar por inteiro à sua criação.   Por outro lado, o recurso aos fragmentos de vidro colorido com elemento primordial nas peças tridimensionais se se afiguram como retratos de personalidades da música e da arte e desporto dos séculos XX e XXI, e uma incursão ao século XVI. A recriação da Vénus ao Espelho (1644-1648), de Diego Velasquez (1599-), realizada no mesmo período em que decorria o Concilio de Trento (1645-1663), remete para uma série de obras de inspiração mitológica, que possibilitam a representação da nudez feminina.  O quadro, que se encontra atualmente na National Portrait Gallery de Londres, teve um percurso atribulado, com acidentes e repintes, e um atentado em 1914, pela mão da sufragista britânica Mary Richardson (1882/3 – 1961) que provocou vários rasgões na tela.
A Vénus de Flavio Rossi é a obra de maiores dimensões (60 cm x 120 cm) da exposição, como sucedia com a pintura de mitologia e história nas antigas pinacotecas e museus, num total de dezanove composições com metade da sua dimensão , com figuras como Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989), artistas espanhóis de projeção global, e Jean-Michel Basquiat (1960-1988), artista norte americano e precursor da Street Art, desaparecido prematuramente. De Portugal, grande demais para a terra que a viu nascer, Amália Rodrigues (1920-1999), o campeoníssimo Cristiano Ronaldo (1985) e o galerista e colecionador António Prates (1946).
A música é uma inspiração recorrente na obra de Flavio Rossi, que em 2018 apresentou na Galeria António Prates a exposição Jazz Me, com composições mistas sobre tela onde pontificava já Miles Davis (1926-1991), compositor e trompetista norte americano que é recuperado neste novo projeto, juntamente com o seu colega Chet Baker (1929-1988), e o antigo colaborador de Davis, John Coltrane (1926-1967), um saxofonista e compositor de exceção, e ainda Billy Holiday (1915-1959), cantora e ativista.  Para além do jazz, nesta proposta de obras constituídas pela assemblagem de cacos de vidro, que recorda a técnica dos embrechados em porcelana, tirando partido das formas e cores  e da translucidez do material assemblado – e também dos efeitos óticos – para refazer a imagem de personagens de vidas afetadas por adições várias, temos ainda Marilyn Monroe (1926-1962), Jimi Hendrix (1942-1970), Jim Morrison (1943-1971) e Amy Winehouse (1983-2011), com carreiras relevantes e vidas curtas.
Dentro do mesmo caleidoscópio existencial, de sorte diversa, com uma longevidade e sucesso assinaláveis, estão os dois elementos fundadores dos Rollling Stones, ainda no ativo, com um álbum lançado no ano passado , Mick Jagger (1943) e Keith Richards (1943), octogenários e sobreviventes improváveis de um estilo de vida hedonista e destrutivo. Talvez este novo projeto do artista brasileiro queira abordar todos os destinos possíveis, ou as consequências das nossas escolhas e do uso do talento que nos coube em sorte. Ou a irrelevância das mesmas, dado que a improbabilidade do destino, ou a predestinação, reduzem a nada a importância do que escolhemos. De uma forma ou de outra, refazer a partir de fragmentos de vidro, de manuseio perigoso e possivelmente destrutivos para quem se aproxima demasiado, a imagem de personagens maiores que a vida, poderá funcionar, pedagogicamente, como um alerta aos visitantes da exposição sobre as consequências da fama.
D. André de Quiroga