Eis a presença de um corpo, camuflado ou simbolicamente “incorporado” na paisagem.

Um corpo duplicado que surge como inscrição de uma fugacidade, procurando reter aquele que é também o lugar de uma ausência… e de um silêncio que se faz ouvir. Lugar que convoca o espanto e a ideia de um enlace entre dois corpos (ou duas realidades) que, por breves instantes, se atravessam.

Neste exercício, vou testando os limites físicos do meu corpo na natureza, tecendo relações com o meio envolvente, expondo-o à contaminação dos elementos orgânicos e naturais e reapresentando-o em formas híbridas resultantes dessa intersecção. Explorar a sua dimensão performativa e experimental – conduzindo o trabalho num regime de alteridade em que a visão polimórfica do corpo se vai reajustando às características da paisagem, do mesmo modo em que esta se molda aos enquadramentos que lhe são exigidos pela práxis pictórica – permite-me convocar o retorno à terra, à contemplação, ao gesto manual e à prática do cuidar como inerentes ao processo criativo.

Se a fotografia se vê convertida no motivo das pinturas, por outro lado vai, ela própria, adquirir o estatuto de fotografia-pintura. O olhar que atravessa a dimensão fotográfica é um olhar pictórico; um olhar que se demora na paisagem em busca da pintura que, insistentemente, persegue.

As projecções dão-se da mesma forma como me entrego à sua ilusão. Dessa entrega é-me devolvida a imagem de um encontro: corpo e natureza repetem uma mesma cadência, um mesmo palpitar. (Re)-apresentam-se na qualidade de uma sombra, de um reflexo, de uma silhueta ou de um simples rasto. Como se, num vislumbre, me fosse concedido o dom de integrar essa inteireza; esse outro que se projecta em mim da mesma forma como me projecto na sua substância. Experienciar a unidade com o todo num perpétuo desdobramento: a pintura gera essa dimensão de utopia onde não há limites para o ser.

De um modo crucial, as imagens transpõem para o presente a memória evocativa de um lugar primordial, sugerindo narrativas que potenciam a experiência do sagrado/numinoso enquanto celebração do elo materno, matricial, com a natureza. São também a expressão de um desejo de futuro, onde a percepção do humano como agente dominador é esbatida pela presença ou sugestão de um corpo que se prolonga na paisagem ou simplesmente se funde na sua substância, numa relação de perfeita e inacessível equidade. Talvez o desejo ainda aceso de uma impossibilidade.
Mónica Palmeira