À beira do Paraíso / On the edge of Paradise
12 artistas imprevisíveis foram desafiados a apresentar, no próximo dia 9 de maio de 2025, algumas das suas obras que consideram ser um contributo para a mudança e para uma nova abordagem da pintura dita convencional. Com trabalhos que vão ao encontro desta ideia de que a prática artística evolui e vai mudando a sua natureza consoante o mundo que se lhe apresenta: mais questionador; mais aberto a perguntas que nos façam pensar e agir sobre uma determinada realidade; mais difícil de equilibrar com a vida de cada um de nós.
A arte acompanha esses movimentos que hoje em dia se complexificam com mais evidência, dado que quase tudo nos é permitido fazer ou realizar a partir dos avanços tecnológicos.
- Onde fica então o trabalho do artista?
- Onde cabem as suas intenções e conhecimentos técnicos?
- A quem se dirige o artista de hoje?
Estas são algumas das questões a que esta seleção de obras tenciona responder, dando pistas de uma vontade de quebrar com as barreiras da normalização da arte, “salpicando” um território híbrido e fértil das artes visuais, na conjugação de diversas técnicas e materiais que conferem ao desenho ou à pintura uma nova dimensão – um desenho que já não é desenho, uma pintura que já deixou de a ser, e uma escultura que se deixa mostrar no traço e na repetição das cores e das formas que saltam da superfície plana.
Esta exposição pretende realçar esse cruzamento entre a pintura, o desenho e a escultura como um ponto em comum entre todas estas técnicas, com a participação de artistas que as exploram simultaneamente, por sentirem que o mundo que os rodeia transborda de perplexidades que disparam em diferentes direções. Ora se referindo à sustentabilidade do nosso planeta, não só tematicamente, como também no uso de materiais reutilizados. Ora advogando uma reflexão sobre o mundo digital e o domínio da imagem na sociedade. Ora ainda atribuindo à imagem pictórica uma inclusão subjetiva no ato de desenhar, esticando, repetindo e rasgando esse próprio ato, transformando-o num grito; numa repetição de gestos; numa marca do seu eu.
Esta ideia de romper com o tradicional, ou a tentativa de encontrar outros caminhos para a ressignificação da arte prende-se com o próprio espírito do impulsionador deste projeto, Aurélio Tavares.
Então a história começa assim:
Na Quinta de São João, situada em Câmara de Lobos, na Madeira, nasce o sonho de um colecionador de arte. Um sonho e uma visão singulares sobre a arte contemporânea e a cultura dos lugares; das pessoas que podem servir-se do espaço como encontro com sua história e património. A esta visão juntam-se a pintura, a escultura, a arquitetura, a enologia e a espiritualidade. Tudo dentro desta Quinta de São João.
Um pioneiro da energia eólica na Madeira, Aurélio Tavares é também um entusiasta da arte desde os seus dezoito anos.
Tem muitas histórias para contar sobre de como ganhou uma paixão irremediável pela pintura, e o seu filantropismo cultural veio, desde 2023, a concretizar-se com o projeto de uma galeria construída nesta bonita e luxuriante quinta, à qual deu o nome de Lourdes.
Lourdes por ser o nome de uma matriarca especial – a sua mãe – que deixou marcas decisivas no carácter de Aurélio.
Com a enorme vontade de retribuir à ilha da Madeira um legado patrimonial auspicioso, em grande parte porque toda a sua atividade profissional girou à volta da ilha da Madeira, e pela forma como foi sempre recebido, reverter esse gesto começaria pelo cuidado arquitetónico local da Quinta e pela conservação original dos espaços naturais que dela fazem parte. O complexo de criação e exposição artística foi crescendo nestes últimos anos, proporcionando, deste modo, um polo interessantíssimo de cruzamentos artísticos, especialmente o colecionismo que foi criando a partir do movimento modernista brasileiro e da arte contemporânea portuguesa, em parte devido à sua coleção de mais de 200 obras.
“Esta casa está aberta e está ao serviço da comunidade”, diz, aliando um espaço cultural, uma casa-mãe, uma capela e uma vinha visitáveis, e mais projetos futuros ligados à arquitetura e ao diálogo entre as artes.
Dando continuidade à procura de novos talentos nas artes visuais, esta exposição pretende marcar uma forte posição no universo insular – o sítio perfeito, entre as geografias brasileira e portuguesa. Estas obras foram escolhidas de forma a reconfigurar um novo horizonte nas artes que rompa com as ideias tradicionais, sem perder a continuidade das práticas artísticas já existentes. Sejam estas figurativa ou abstrata, estas evocam jardins luxuriantes; a beleza marinha do Atlântico, as cores vibrantes e as formas espelhadas da água, de um azul intenso, que nos despertam os sentidos como se as pudéssemos tocar a partir do vidro que as encerra.
Curadora
Elisa Ochoa
17 de abril de 2025






