SINGULARITIES

João Galrão

5 de Março – 17 de Abril 2020

A poliaptidão do artista visual João Galrão manifesta-se na prática – e fusão – de diversas disciplinas artísticas, da escultura e pintura ao desenho, da fotografia e da instalação à performance.

A veia do escultor detecta-se nestas obras em esmalte acrílico sobre papelão, delicada e minuciosamente recortadas a X-Acto, criando inusitados relevos, numa técnica singular – e a nova artesania é vertente que a mais recente criação contemporânea tem recuperado.

Os motivos de formas arquitecturais rigorosamente ortogonais – torres de apartamentos e vivendas de luxo – evoca a utopia da ortodoxia modernista veiculada, outrora, por revistas e magazines e, hoje, universalmente divulgada pela Net – e não deixa de evocar o universo irónico do celebrado cinema de Jacques Tati, particularmente do seu icónico filme Mon Oncle. 

Contrastando com estas formas geométricas rigorosas, surgem volutas que evocam céus revoltos, nuvens fugazes, a sedução volátil do fumo ou até o neoprimitivismo da tatuagem Maori – numa vertente neopsicadélica que hoje o mundo recupera, como tema de debate, discussão, lazer ou prática paliativa.

O automóvel ou a piscina são outros adereços destas imagens de desejo, que podem surgir em vastas composições camp, também elas minuciosamente desenhadas a fino recorte, enveredando pela prática de gender art, onde a piscina ou o guarda-sol são adereços de felicidade canibalizados do universo solarengo californiano e da liberdade de costumes que David Hocney, aqui evocado, soube fixar na pintura.

Contudo, esta deriva não é meramente estetizante – e um um novo e deliberado primitivismo surge num par de retratos imaginados acrescidos de frases-manifesto que reivindicam a liberdade da prática visual («I Am Figurative Too») quando não as narrativas ocultas do quotidiano («I Miss Summer», «I Hate My Husband» ou «Normal Day»).

Inovando ao nível de técnicas e suportes, João Galrão recorre a painéis protectores de automóveis dos raios solares para, novamente, os revestir de fina película finamente recortada, obtendo composições de padronagens geométricas e ortogonais que contrastam, livremente, com círculos, curvas e contracurvas, acrescidos de elementos paisagísticos dispersos – montanhas, sóis, nuvens – numa reivindicação de um Natural imaginado, neste caso acrescido dos brilhos do material de suporte e desmaterializado em luz.

Noutra vertente, a colagem é outra prática do artista.

Canibalizando livremente os grandes mestres da pintura, João Galrão sobrepõe composições distintas, também elas recortadas, culminando em outras composições que evocam possíveis narrativas de cariz surrealizante.

Ou, mais ainda, recorre a revistas eróticas antigas, impressas a off-set, hoje desaparecidas e tornadas obsoletas com a universalização da internet, recorta-as e sobrepõe-lhes outras imagens, quer fotográficas quer pictóricas, obtendo composições visualmente poderosas onde os universos do desejo e da memória são convocados.

Por vezes executadas em caixas de luz intermitente, acrescidas de materiais plásticos reciclados, estas saborosas colagens apresentam um crepitar luminoso de superfície que, novamente, desmaterializa as suas formas e envereda pelas sendas do neopsicadelismo pós-Pop. 

De múltiplos sentidos e camadas, estas obras, para além da exaltação sensorial, desafiam a percepção e, na sua interdisciplinaridade, inserem-se em qualificada prática visual contemporânea.

Rui Afonso Santos 

Curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado

Nota: Este texto não foi escrito à sombra do desacordo ortográfico. 

BIOGRAFIA
Vive e trabalha em Lisboa. De 1996 a 2001 estudou no Ar.Co, em Lisboa, onde concluiu o Curso Avançado de Artes Plásticas. Expôs individualmente em galerias tais como: Graça Brandão, Porto (2003), Hammer sidi, Londres (2003), Agência Vera Cortês Art, Lisboa (2005), Casa Triângulo, São Paulo (2005) e The Chemistry Gallery, Praga (2008).
Desde 1996 tem participado em várias exposições coletivas, incluindo a Exposição de Estudantes do Ar.Co (1999, 2000 e 2001); O Quarto do Collector, Galeria Canvas, Porto (2002), Salon de Montrouge 48ème (European Jovens Criadores Salon) Montrouge, Barcelona e Amarante (2003); Galeria Luis Adelentado, Valencia (2003) e agora como comissário e um dos artistas intervenientes no projecto “Afrontamentos“.
A sua obra encontra-se na fronteira entre a pintura e a escultura, originando um valor tridimensional obtido através da utilização de elevações e depressões.

SINGULARITIES

The poliaptitude of the visual artist João Galrão manifests itself in practice – and fusion – from various artistic disciplines, from sculpture and painting to drawing, photography and installation to performance.

The sculptor’s vein is detected in these works in acrylic enamel on cardboard, delicately and meticulously cut to X-Acto, creating unusual reliefs, in a unique technique – and the new craftsmanship is an aspect that the most recent contemporary creation has recovered.

The motifs of strictly orthogonal architectural forms – apartment towers and luxury villas – evokes the utopia of modernist orthodoxy conveyed, formerly, by magazines and journals and today, universally disseminated by the internet – and does not fail to evoke the ironic universe of Jacques Tati’s celebrated cinema, particularly his iconic film Mon Oncle

In contrast to these rigorous geometric shapes, arise volutes that evoke rough skies, fleeting clouds, the volatile seduction of smoking or even the neoprimitivism of the Maori tattoo – in a neo-psychedelic aspect that today the world is recovering, as a topic of debate, discussion, leisure or palliative practice.

The car or the pool are other props of these images of desire, which can arise in large camp compositions, also minutely designed with a fine cut, embarking on the practice of gender art, where the pool or the umbrella are props of happiness cannibalized from the sunny Californian universe and the freedom of customs that David Hockney, here evoked, was able to fix in painting.

However, this drift is not merely aestheticizing – and a new and deliberate primitivism appears in a pair of imagined portraits added with manifest phrases that claim the freedom of visual practice («I Am Figurative Too») when not the hidden narratives of everyday life («I Miss Summer», «I Hate My Husband» or «Normal Day»).

Innovating in terms of techniques and supports, João Galrão uses car protective panels from sunlight to, again, coat them with thin, finely cut film, obtaining compositions of geometric and orthogonal patterns that contrast, freely, with circles, curves and counter-curves, added with scattered landscape elements – mountains, suns, clouds – in a claim of an imagined Natural, in this case increased by the brilliance of the support material and dematerialized in light.

In another aspect, collage is another practice of the artist.

Freely cannibalizing the great masters of painting, João Galrão overlaps different compositions, also cut, culminating in other compositions that evoke possible narratives of a surreal nature.

Or, even more, uses ancient erotic magazines, printed in off-set, today disappeared and rendered obsolete with the universalization of the internet, cut them out and superimpose other images, either photographic or pictorial, obtaining visually powerful compositions where the universes of desire and memory are summoned.

Sometimes performed in flashing light boxes, added with recycled plastic materials, these tasty collages have a bright surface crackling which, again, dematerializes its forms and embarks on the paths of post-Pop neopsychadelism.

With multiple senses and layers, these works, in addition to the sensorial exaltation, challenge perception and, in their interdisciplinarity, are part of a qualified contemporary visual practice.

Rui Afonso Santos

Curator of the Museu Nacional de Arte Contemporânea –Chiado Museum

BIOGRAFHY
Lives and works in Lisbon. From 1996 to 2001 he studied at Ar.Co, in Lisbon, where he completed the Advanced Course in Plastic Arts. He held solo exhibitons in: Graça Brandão, Oporto (2003), Hammer sidi, London (2003), Agência Vera Cortês Art, Lisbon (2005), Casa Triângulo, São Paulo (2005) and The Chemistry Gallery, Prague (2008).
Since 1996 he has been participating in several group exhibitions, including the Exposição de Estudantes of Ar.Co (1999, 2000 and 2001); O Quarto do Collector, Galeria Canvas, Oporto (2002), Salon de Montrouge 48ème (European Young Creators Salon) Montrouge, Barcelona and Amarante (2003); Galeria Luis Adelentado, Valencia (2003) and now as commissioner and one of the artists involved in the project “Afrontamentos“.
His work lies at the boundary between painting and sculpture, creating a three-dimensional value obtained through the use of elevations and depressions.