THE LAST SUPPER? A obra de Pedro Zamith constitui um dos mais notáveis casos da recente Pintura Neo-Figurativa Portuguesa. 

Com pais espirituais e formais no fabuloso grupo Homeostético, legado desenvolvido pelo icónico António Olaio, este campo expandido da pintura, frequentemente irónico e iconoclasta, plural e multímodo, ou reflexivo e canibalizante de outras memória da pintura e não só, ilustra a mutação contemporânea de uma sociedade cada vez mais global, distanciando-se ironicamente dela porém.

A irrisão de um Robert Crumb, o autor de Fritz the Cat (que neste país ingénuo apenas passou  – o filme – após o 25 de Abril, como o necessário aviso-regra, hoje inimaginável, do «interdito a Menores de 18 Anos», e com a bela e confortável chancela do belíssimo Cinema Londres) – alia-se a um expressionismo gestualizante. de grande minúcia porém – Pinturas de Zamith. A BD, bem entendido, mas obviamente a Street Art e o Graffiti servem de base a narrativas complexas, denunciadoras da alienação contemporânea. 

Se Almada no fim da vida dizia que a única coisa que lhe interessava era o Espectáculo, e se Debord o denunciou com as consequências políticas do Maio de 68 (e da fabulosa Arte Situacionista), efectivamente o parto traumático do século XXI (o 11 de Setembro) trouxe uma era de mutação propiciada pelo fabuloso fenómeno da Internet.

Nascida como o sabemos, da indústria bélica e militar, a Internet tornou realidade a Utopia da informação sem censura, e da comunicação planetária.

O outro lado da medalha existe, bem o sabemos, e Espectacular é esta Pintura de Zamith que bem retrata a alienação contemporânea: um cozinheiro estilizado e arrogante, promovido a novo Guru, pode apresentar caríssima tosta pós-nouvelle cuisine pós-pós minimalismo coroada por camarão. a preços caríssimos e imediato estrelato dos media – que novos ricos consomem por imperativo social e cultural, podendo tornar-se-se autofágicos no processo e devorar a própria mão. Neste teatro de realidades expressivas, que Zamith pinta e inventa, pode surgir icónico casal do Jet-Set Socialite, ele com um look pós-Boney M, ela com boca de piscina em botox, indiferentes um ao outro e apresentados na imprensa do coração como a ideal família feliz contemporânea – que pode ser a Família Portuguesa, com certeza, na sua Aura-Mediocritas, o Pai, a Mãe e o Filho, mais o cão, consumidores de TV e novelas. 

Deliciosa, é a inquietante Enfermeira, fétiche erótico hoje muito divulgado, que tanto Iembra o Cinema de Tarantino – a Uma Thurman assassina – como histórias, que a net disseca e os jornais sensacionalistas divulgam, de certas enfermeiras assassinas de pacientes em determinadas latitudes geográficas.

Contudo, o campo expandido da Pintura de Pedro Zamith transborda para a escultura, e um gelado ganha três-dimensões e sorri-nos – que muito de Comida se trata aqui –, coroado por anjinho barroco de irónico sorriso – que é o do Auto-retrato escultórico do autor, crânio pintado com olhos desconcertantes e salientes, que nesta Exposição nos recebe. O Cinema (e, com a Net, as Salas vão infelizmente fechando), além da música, é outra das fontes de Zamith, que pode compor uma cena de género contemporânea, recanto de café onde uma sofisticada garçonne coeva ( Lulu?) tenta comunicar com o Belo indiferente.

Neste campo pictórico expandido, bem entendido, a instalação – que Zamith faz transbordar para as paredes envolventes, com grande domínio do espaço – e com isso revificando a tradição da pintura mural. O retrato crítico da sociedade contemporânea aparece aqui – e Zamith também é, como bem sei, notável e virtuoso retratista, pintando excelentes e dissecantes retratos sem vaidades panegíricas. que são coisa vã, de vaidade – sendo nesse trabalho capaz de grande densidade psicológica.

«Troppo Veron?», como disse o Papa perante o (seu) Melhor Retrato do Mundo. o Inocêncio X de Velázquez?

Ora muito bem. Pedro Zamith! 

É isso MESMO que Queremos! 

E Precisamos! 


Rui Afonso Santos 
(Curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado)

Inauguração da Exposição


“faz-me um boneco”,
ensaio sobre o trabalho de Pedro Zamith 

por Pedro Soares Neves,
investigador, editor Urbancreativity

Com Zamith a expressão “faz-me um boneco” é positiva, é uma oportunidade, é um mundo muito próprio que se abre. Próprio mas não exclusivo, diria mesmo bastante popular, com tradições contraditórias. “Bonecos”, um trabalho visceral, que sai do intimo de forma espontânea, fruto de uma metodologia casuística de pesquisa. onde o acaso e os estímulos inesperados são determinantes. 

Neste pequeno ensaio dou destaque a uma particularidade da posição que Pedro Zamith ocupa no espectro da criação nacional. A posição que Interessa abordar é a de que é também com ele, e através dele, que os “bonecos” entram nalgumas das galerias e colecções mais reputadas.

Os “bonecos’ são afirmações têm que ser traduzidas por miúdos. crianças todos fomos, e somos se deixarmos, e é também sobre isso que fala a plasticidade do trabalho de Zamith. As galerias e colecções mais reputadas podem, e devem, ter serviço educativo para as crianças, mas aí termina a conversa Infantil. Infelizmente a maioria das galerias e colecções mais reputadas são sérias, tratam de assuntos de grande responsabilidade que envolvem valores superiores dos quais supostamente nada entende uma criança. Convém aqui deixar claro que pessoalmente como investigador e fazedor de “bonecos” do tipo graffiti, arte urbana ou street art (ou que lhe quiserem chamar), este assunto toca-me, e nesta circunstância, por não ser um texto académico, fico menos contido.

Trata-se aqui da adopção pelas galerias e colecções destas expressões figurativas que Invocam o Imaginário popular do desenho simples. garrido e despretensiosa que as crianças e jovens popularmente absorvem o reproduzem. As crianças na rua, depois de verem muitos “bonecos” nas revistas e na TV, fazem “bonecos” nos papeis e algumas até nas paredes, o que é perfeitamente natural. As crianças crescem em tamanho e algumas continuam a fazer bonecos e as galerias e colecções mais reputadas absorvem este material “radioactivo”. 

Eles é brut, pop, surrealista e expressionista, abstracto, dadaísta, é anti arte, é arte é vida e quantos mais. São “bonecos”! Importante ter em conta, é que os espaços de exposição as galerias e colecções mais reputadas, são também espaços de troca, o que é relevante nestes tempos que correm onde o padeiro não aceita todos os dias um desenho por cinco carcaças, já para não falar na conta da luz. 

Dinheiro, é o que serve para essas coisas da troca, e quando se tem o dito, pode-se ir ao restaurante, (para mais sobre este assunto ver a exposição em causa). Quando os “bonecos” se trocam por dinheiro eventualmente conseguem-se fazer mais “bonecos”, quando os “bonecos” são feitos vivendo intensamente o acaso e os estímulos inesperados, reagindo ao que nos rodeia, a arte é a vida. 

Se a essa dimensão do presente acrescentarmos a que desejamos (ou necessitamos) para o futuro teremos cada vez mais cidadãos criativos a fazer coisas, em posse da sua própria capacidade criadora. Caminhando para uma autonomia do fazer em prol das reais necessidades locais. Não as necessidades da produção em massa que nos modela à sua imagem. 

Os “bonecos” de Zamith são a Imagem dessa modelação da produção em massa, de cores estridentes, do apelo ao excesso distorcido que vivemos. Essa revelação acolhida pelas galerias e colecções mais reputadas seguramente abriu e abrirá caminho para que muitos mais consigam desenvolver o processo de renovação criativa em curso (por exemplo com as coisas da arte urbana).

Claro está que é um meio não é um fim. Ou seja, acredito que as galerias e colecções mais reputadas, não são o fim em si mesmo do trabalho que desenvolvem, como buracos negros da criação, para fortuna própria, especulação financeira ou outras que tais. Dou aqui importância ao papel que é desenvolvido através da mensagem que transmitem, às condições que criam para os que acolhem prossigam o seu trabalho fora do contexto das galerias, influenciando na sua acção profissional entre outros, os arquitetos, os urbanistas, os políticos e os juízes, engenheiros economistas e gestores. 

Em suma, porque Zamith se encontra neste ponto de tensão entre alta e baixa cultura ajuda a abrir caminho para fluxos de renovação criativa dentro e fora do mundo da arte. Os ‘bonecos’ tornam-se assim um discurso sério, de grande responsabilidade e que envolve valores superiores, a serem reconhecidos por todos como estímulo de criação, para uma autonomia do fazer em prol das reais necessidades locais.

O Artista Pedro Zamith a dedicar um catálogo