OS DESENHOS ESCULTÓRICOS DE JOÃO GALRÃO

Plenamente afirmado como escultor, o jovem e multiversátil artista João Galrão reparte-se igualmente, com grande qualidade, pelas disciplinas da fotografia, da pintura, da instalação, da performance e, neste caso, do desenho.

A veia do escultor detecta-se nestas obras sobre cartão e cartolina, delicada e minuciosamente recortadas a X-Ato, criando inusitados relevos, numa técnica inédita – e a nova artesania é vertente que a mais recente criação contemporânea tem recuperado.

Desenhando com X-Ato, João Galrão evidencia a nostalgia de um tempo perdido, num cenário presente em que o homem delapidou irreversivelmente o seu habitat e recursos naturais. Landscape 2 e 3 e Lost View 6 testemunham esta vertente, surgindo, com deliberado ingenuismo, as formas de árvores e de casario recortadas sobre um fundo onde rectas paralelas contrastam com curvas e contracurvas – e nestas últimas haverá que detectar a sugestão da arte Maori, particularmente da tatuagem.

Esta vertente humana – e humanista – é omnipresente nestes desenhos, que canibalizam criativamente os célebres girassóis de Van Gogh para os devolver, com grande liberdade, com volutas hiper-acentuadas que lembram, igualmente, a sedução volátil do fumo.

Em Silent Night um mocho ou coruja -a ave sagrada de Atena – pousa sobre um ramo onde surge uma inusitada rosa, nova referência à tatuagem – e a este lado de mistério sábio e indecifrável acrescem igualmente as volutas recortadas e ampliadas, numa conotação psicadélica que é, também ela, recuperada pela mais recente criação actual.

Este neopsicadelismo contrasta com as formas rigorosamente ortogonais, neomodernas e sedutoras, das paisagens urbanas hiperpovoadas – Sunset in the City e Cityland – e, frequentemente, estes sonhos urbanísticos podem culminar na implosão de uma torre problemática de bairro social, de um edifício infectado por legionella ou, possivelmente, de uma cidade-fantasma motivada pela mais desenfreada especulação imobiliária – e tal vertente pode deduzir-se de Bad Dream.

Em Blue Moon e Mars View, a realidade televisiva da célebre série dos Anos 70 Espaço 1999 não está tão distante como parece, num quadro actual onde sondas sofisticadas e veículos espaciais cada vez mais elaborados exploram, decisivamente, a possibilidade da colonização futura de outros planetas, numa Terra irremediavelmente exaurida perante a escalada interminável da avidez e irresponsabilidade humanas.

Quem sabe, um Super-Homem ou, melhor, a crescente informação e esperança nas gerações vindouras, impedirá que tão dura realidade se concretize – You Are My Hero.

Fundindo utopia e distopia, estes desenhos belíssimos e encantatórios inserem-se na mais qualificada criação artística portuguesa contemporânea.

Nota: Este texto não foi escrito à sombra do desacordo ortográfico.


João Galrão’s Sculptural Drawings

Completely assumed as a sculptor, the young and multi-versatile artist João Galrão also dominates, with great quality, the disciplines of photography, painting, installation, performance and, in this case, drawing.

The sculptor’s vein is detected in these works on cardboard, delicately and carefully cut using a stationary knife, creating unusual reliefs with an unprecedented technique, handcrafted, that the most recent contemporary creation has been recovering.

Drawing with stationary knifes, João Galrão shows the nostalgia of a lost time, in a present scenario in which the man permanently depleted its habitat and natural resources. Landscape 2 and 3 and Lost View 6 testify this feature, with deliberate naivety, the shapes of trees and houses cut out on a background where parallel lines contrast with curves and counter curves – in these last ones we detect the presence of Maori art, particularly the tattoo.

This human – and humanistic – feature is omnipresent in these drawings, which creatively cannibalize the famous sunflowers of Van Gogh and give them back, with great freedom, with high-enhanced volutes that also resemble the volatile seduction of smoke.

In Silent Night an owl – the sacred bird of Athena – rests on a branch where an unusual rose appears, a new reference to the tattoo – and to the wise and indecipherable mystery also joins the cut and enlarged volutes, in a psychedelic connotation that it is also recovered by the most recent creation nowadays.

This new psychedelic feature contrasts with the strictly orthogonal, new modern and seductive forms of high-populated urban landscapes – Sunset in the City and Cityland – and, often, these urban dreams can culminate in the implosion of a social neighbourhood problematic tower, a building infected with legionella or, possibly, a ghost town due to the most uncontrolled real estate speculation – and this feature can be observed in Bad Dream.

In Blue Moon and Mars View, the reality of the 70’s famous TV series, “Space 1999”, is not as distant as it seems, in an actual context where sophisticated space probes and increasingly elaborate spaceships decisively explore the possibility of future colonization of other planets, in an Earth hopelessly exhausted by the endless escalation of human greed and irresponsibility.

Who knows, maybe a Superman or, rather, the growing information and hope in the generations to come, will prevent such a harsh reality from happening- You Are My Hero.

Merging utopia and dystopia, these beautiful and enchanting drawings fit the most qualified contemporary Portuguese artistic creation.

Rui Afonso Santos
Curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
Curator of the National Museum of Contemporary Art – Chiado Museum

Artista João Galrão

“Before Now, Tribute to the Past” resultou de uma série de desenhos cortados em papelão e cartolina colorida, em que o olhar sobre o passado é simbolizado através de composições bucólicas, como uma paisagem com um palácio, jardins e pomar e outras, em que apesar de futuristas, como uma cidade na Lua e outra em Marte, parecem imagens retiradas de filmes de ficção cientifica dos anos 70. O céu com volúpias que porventura remetem para o Van Gogh ou de inspiração Maori é presente em todos estes desenhos e uma característica dominante. O facto de os desenhos serem criados a partir de perfurações do material faz deles mais invulgares e a volumetria do papelão dão-lhe características escultóricas em que os tornam mais híbridos.


“Before Now, Tribute to the Past” resulted from a series of drawings chopped in cardboard and coloured paperboard, where the look over the past is represented through bucolic compositions, such as a landscape with a palace, gardens and orchard and others, where despite being futuristic, like the city on the Moon or on Mars, they seem images withdrawn from science fiction movies from the 70s. The sky with voluptuous, that perhaps refers to Van Gogh or got it from Maori inspiration, is present in all these drawings and is a dominant characteristic. The fact that all of the drawings are created from perforations of the material makes them more unusual and the volumetric of the cardboard gives them sculptural characteristics which render them more hybrids.

João Galrão